Livro aborda conflitos sociais e culturais no Baixo Amazonas

24/09/2012 – Qual tem sido o impacto da comercialização dos movimentos folclóricos, como por exemplo o Boi-Bumbá, referência do folclore de Parintins (distante 315 quilômetros da capital), sobre os grupos sociais do município? Como a mídia tem atuado na produção de falsas percepções nos juvenis a partir de uma sociedade global? Qual a relação das populações locais com o meio ambiente, que geram conflitos e tensões sociais? Esses são alguns questionamentos que norteiam o livro ‘Amazônia: chaves múltiplas para a interpretação da realidade’, organizados pelos pesquisadores da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Renan Albuquerque e Gerson Ferreira.

Siga a FAPEAM no Twitter e acompanhe também no Facebook

Fruto de cinco anos de implantação do Instituto de Ciência Sociais, Educação e Zootecnia (ICSEZ – Polo Parintins), a obra é uma reflexão crítica feita a partir de trabalhos teóricos e práticos realizados em sala de aula, pesquisas de campo de alunos e professores do município. O livro reúne artigos escritos por professores, que abordam a Amazônia sob a perspectiva de quem vive nela, trabalha e conhece a realidade dos grupos sociais, os conflitos e as tensões.

Ex-bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM), hoje, Albuquerque é doutorando do Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Cultura na Amazônia, da Ufam. Ele explicou que os autores procuraram fazer uma conexão entre os saberes desses grupos (juvenis, pescadores, sem teto e sem terra), a partir do conhecimento científico de áreas como Sociologia, Comunicação, Antropologia e Psicologia.

O eixo principal da obra foram as questões sociais, migrações, a construção de hidrelétricas, tecidos urbanos, terras, culturas econômicas e ambientais, que geram conflitos no Baixo Amazonas. “Parintins não é apenas folclore, Boi-Bumbá. Entretanto, a mídia corrobora sobre uma concepção equivocada da cidade, em que se gera uma falsa interpretação de cidade dos sonhos. A cidade tem vários problemas como qualquer outra do interior do Estado”, pontuou. 

Conforme o pesquisador, a obra foi dividida, primeiramente, sobre o espaço urbano e como os grupos sociais se formam neles, das pessoas que praticam o boi-bumbá e que entendem a realidade. O livro está dividido em 12 capítulos, nos quais são abordados, por exemplo, ‘Sobre a produção social do espaço urbano’, ‘Reflexão e crítica sobre a comercialização do folclore’, ‘O paradigma ecológico, a teoria da complexidade e a questão ambiental’, ‘O processo de mutação das culturas juvenis na Ilha Tupinambarana’, entre outros.

“No artigo ‘Reflexão e crítica sobre a comercialização do folclore’ é abordado o folclore como commodities. Contudo, a soja, o gado, os grãos é que são comercializados em forma de commodities, o que demonstra o conflito que existe para alavancar o desenvolvimento sustentável. Abordamos a mutação que há nas culturas juvenis. Eles estão reproduzindo o mesmo processo cultural, o mesmo pensamento: ‘Parintins como cidades dos sonhos’”, pontuou. 

A cidade tem inúmeros problemas mascarados por conta do folclore, de acordo com Albuquerque. Ele salientou que, com certeza, o movimento cultural existente no município é importante, todavia, existem problemas de coleta de lixo, saneamento básico, falta de perspectivas futuras para os jovens, etc. Essas questões geram os conflitos sociais, entretanto são “apagadas” pelo boi-bumbá.

Ao longo dos cinco anos de existência do grupo de pesquisa de Parintins, os pesquisadores têm trabalhado para que os jovens enxerguem uma perspectiva de futuro, de acordo com Albuquerque. Ele explicou que os Polos da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e Ufam têm ajudado a mudar a realidade. Porém, percebe-se ainda a existência de um forte pensamento da igreja sobre o comportamento social, como se fosse lei. Entretanto, as universidades têm ajudado a mudar o pensamento e funcionado como espaço de discussão para a formação do indivíduo como ser social.

“O objetivo do debate abordado no livro não é apontar a culpa de A ou B, uma vez que consiste em um conjunto de fatores que contribuíram para a construção da situação atual. Mas fazer uma reflexão crítica do processo e apontar possibilidades de melhoria. As possibilidades de mudança passam pela própria relação da mídia com as pessoas e da comercialização do folclore”, avisou.

Para Albuquerque, os jovens de Parintins têm utilizado as invenções tecnológicas digitais apenas como artefato de status social, assim como ocorre na capital. Isto é, o simbolismo que o produto causa nas outras pessoas e proporciona a quem o possui. Há casos de jovens que moram em locais com condições precárias, mas possuem o último modelo de celular lançado no mercado. Ou seja, há uma fantasia midiática e digital.

Lançamento

O livro ‘Amazônia: chaves múltiplas para a interpretação da realidade’ será lançado no dia 10 de outubro, no Instituto de Ciências Sociais, Educação e Zootecnia (ICSEZ). O evento marca os cinco anos de implantação do Polo Parintins da Ufam. A obra foi organizada pelos pesquisadores Renan Albuquerque e Gerson Ferreira.

Integram a coletânea profissionais de diferentes áreas, como Gracienne Siqueira (jornalista), Denison Silvan (jornalista), Alexsandro Medeiros (filósofo), Tatiana Barbosa (geógrafa), Estevan Bartoli (geógrafo) e Milena Barroso (serviço social).

O prefácio do livro foi escrito pelo pesquisador e antropólogo da Universidade de São Paulo (USP), José Guilherme Cantor Magnani, que também ajudou a construir e pensar a ideia do livro.

Luís Mansuêto – Agência FAPEAM

Mais notícias >>


Privacy Overview

Utilizamos cookies para permitir uma melhor experiência em nosso website e para nos ajudar a compreender quais informações são mais úteis e relevantes para você. Por isso é importante que você concorde com a política de uso de cookies da FAPEAM - Fundação de Amparo e Pesquisa do Amazonas. Você pode encontrar mais informações sobre quais cookies estamos utilizando em configurações.