Entrevista: Economia criativa, uma oportunidade de negócios inovadores

27/08/2012 – Na economia criativa, o valor do trabalho é dado pelo simbólico, pelo talento e pela sensibilidade aplicados pelo artista na produção da obra. Essa nova forma de geração de renda voltada para o crescimento social e econômico é o assunto tratado pelo diretor de Desenvolvimento e Monitoramento da Secretaria da Economia Criativa do Ministério da Cultura, Luiz Antônio Gouveia de Oliveira. Nesta entrevista, concedida com exclusividade à revista Amazonas Faz Ciência, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM), o diretor trata sobre as oportunidades geradas pela economia criativa, bem como os desafios que o País precisa superar para ter representatividade na economia criativa global, que cresceu, em média, 5,2% ao ano, entre 1994 (US$ 39 bilhões) e 2002 (US$ 59 bilhões). O Amazonas com sua imensa diversidade sociocultural se constitui em um espaço com grande potencial para o crescimento desta área da economia e neste desafio, ciência e criação de novas tecnologias são primordiais.

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Amazonas Faz Ciência>>
Em tempos de crise econômica, a economia criativa representa uma alternativa inclusiva de crescimento social e econômico?


Luiz Antônio Gouveia >>
Sim, sem dúvida. De 1980 a 1998, segundo a Unesco, o volume de recursos no comércio internacional desses segmentos cresceu de US$ 95,3 bilhões para US$ 387,9 bilhões. Em 1996, os produtos da economia criativa tornaram-se a maior pauta de exportações dos EUA, ultrapassando todas as demais indústrias tradicionais: automobilística, agrária, aeroespacial e de defesa. Segundo estimativas da Unesco, o comércio internacional em bens e serviços criativos cresceu, em média, 5,2% ao ano entre 1994 (US$ 39 bilhões) e 2002 (US$ 59 bilhões). No entanto, esse crescimento continua concentrado nos países desenvolvidos, responsáveis por mais de 50% das exportações e importações mundiais.

A economia criativa se opõe radicalmente à velha economia ‘fordista’, pois se caracteriza pela abundância (dos recursos culturais) e não pela escassez (dos recursos naturais), pela sustentabilidade social e não pela exploração de recursos humanos, pela inclusão produtiva e não pela marginalização de indivíduos e comunidades. Enquanto dinâmica social, cultural e econômica, ela abrange um grande espectro de setores que vão das linguagens artísticas ou das artesanais populares às tecnologias da informação, ao design, à arquitetura e à moda, qualificando, ainda as políticas públicas territoriais (bairros, cidades, consórcios municipais), graças aos avanços das ciências e das novas tecnologias. Além do mais, pelas características já citadas, a economia criativa vem demonstrando sua capacidade de construir novas solidariedades, éticas e estéticas, tanto em comunidades tradicionais quanto em coletivos e redes.

AFC>> Quais ações a Secretaria tem promovido para alavancar a economia criativa no País?

Gouveia>> Tivemos uma etapa grande de planejamento e estruturação da pasta. Neste processo, fizemos diversos encontros em todo o País, apresentando a temática da economia criativa e sensibilizando os mais variados setores sociais para este tema. Paralelamente, convidamos a sociedade civil, especialistas da área e o poder público a pensar a economia criativa brasileira – chegando primeiramente a um conceito e, posteriormente, ao Plano da Secretaria da Economia Criativa 2011/14 que norteia os nossos trabalhos. A partir dele, lançamos alguns produtos – dois editais e os ‘Criativa Birôs’ (escritórios de apoio a empreendedores). Inicialmente, os ‘Criativa Birôs’ foram conveniados com cinco Estados (RS, GO, MG, AC e PE) e estamos na fase de convênio com outras nove unidades da Federação.

Tivemos um momento mais interno – de discussões – e estamos agora em uma etapa de começar a colocar o nosso plano em execução. Neste sentido, nossa última ação foi o lançamento do Observatório Brasileiro da Economia Criativa (Obec) que pretende reunir pesquisas e dados sobre o tema em todo o País. O Obec terá braços em todos os Estados, sendo 14 deles previstos já para este ano.

AFC>>  No Amazonas, quais ações estão sendo desenvolvidas?


Gouveia>>
Por ser subsede da Copa do Mundo, o Amazonas está entre as nossas prioridades. Pretendemos conveniar ainda este ano com o Estado a implantação do ‘Criativa Birô’ e instalar o Observatório Estadual da Economia Criativa.

AFC>> Quais desafios precisam ser superados para estimular a economia criativa no Brasil?

Gouveia>> Em nosso Plano 2011/14, elencamos alguns desafios. Precisamos de pesquisas, de novas metodologias para a produção de dados confiáveis; necessitamos de linhas de crédito para esses empreendedores, de formação para as competências criativas e de infraestrutura que garanta a produção, circulação e consumo de bens e serviços criativos dentro e fora do País. Carecemos, ainda, de marcos legais tributários, trabalhistas e civis que nos permitam avançar.

AFC>> Os bancos e as instituições financeiras estão preparados para tratar com o empreendedor criativo?

Gouveia>> Infelizmente, ainda não. No que tange ao fomento de empreendimentos criativos podemos, por exemplo, estimular o uso do microcrédito de bancos e diversificar os mecanismos de financiamento, assim como promover a institucionalização de grupos ou associações de empreendedores criativos. Estamos trabalhando para que isso ocorra.

AFC>> A temática deste ano da Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) é ‘Ciência, Cultura e Saberes Tradicionais para Enfrentar a Pobreza’. Como o governo e a sociedade podem se articular para enfrentar a pobreza a partir desta proposta?

Gouveia>> Apesar das políticas sociais dos últimos governos, o Brasil ainda luta contra sua desigualdade social. No sentido de fortalecer a pactuação federativa no processo de desenvolvimento de políticas públicas para o campo da economia criativa, a Secretaria contou com a participação de gestores públicos, representantes das Secretarias e Fundações de Cultura dos Estados e municípios das capitais para discussões relacionadas às demandas locais e regionais. Nesse sentido, a Secretaria da Economia Criativa propõe um conjunto de iniciativas e ações a serem implementadas pelo Ministério da Cultura, articuladas de modo interministerial e com diversos parceiros públicos e privados, a partir dos seus eixos de atuação: institucionalização de territórios criativos; desenvolvimento de pesquisas e monitoramentos; estabelecimento de marcos legais favoráveis à economia criativa brasileira; fomento técnico e financeiro voltado para negócios e empreendimentos dos setores criativos; promoção e fortalecimento de organizações associativas (cooperativas, redes e coletivos) e formação para competências criativas de modo a promover a inclusão produtiva.

AFC>> Na economia criativa, o valor do trabalho é dado pelo simbólico, pelo talento e pela sensibilidade aplicados pelo artista na produção da obra. A sociedade e as empresas estão preparadas para esse tipo de economia?

Gouveia>> A Cultura pode, sim, contribuir e muito para o desenvolvimento do País. E quando falo em desenvolvimento não condiciono o termo apenas a sua faceta econômica, mas considero também o aspecto social do desenvolvimento. Os trabalhadores da Cultura e os empreendimentos culturais lidam com o simbólico e o intangível (criatividade e conhecimento) e esses atributos, hoje, são muito valorizados como agregadores de valor aos produtos e serviços da indústria tradicional de bens tangíveis. Ao mesmo tempo em que gera riqueza material, a Cultura é também capaz de promover o desenvolvimento pela inclusão e o fortalecimento do tecido social do País, pois sua lógica econômica subverte a lógica da economia tradicional, fundada na escassez de recursos. No âmbito da economia da Cultura, os insumos e recursos (criatividade e conhecimento) são abundantes e se multiplicam na proporção direta em que são consumidos. Portanto, acredito que, sim, estamos preparados para esta temática, mas temos, conforme dito anteriormente, alguns desafios a vencer.

Luís Mansuêto – Agência FAPEAM

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