ABC debate sobre os desafios de CT&I na Amazônia

Diante da crise ambiental que assola o mundo, o Brasil tem uma oportunidade histórica e única para criar um modelo inovador de desenvolvimento econômico em bases ambientalmente sustentáveis. E a Amazônia, pela riqueza de sua biodiversidade, poderá ser o "laboratório" desse novo modelo. A questão é que não há respostas para a maioria dos desafios, mas somente uma certeza: sem competências científicas e tecnológicas na região não haverá como alavancar esse processo do qual o Brasil poderá ser líder ou ser arrastado.

Esse foi, em síntese, o resultado das discussões do painel "Amazônia: Desafio Científico e Tecnológico para o Século XXI", realizado na última segunda-feira (16), durante o seminário "Amazônia: Desafios e Perspectivas da Integração Regional", organizado pela Academia Brasileira de Ciências (ABC) e pelo Centro Brasileiro de Estudos da América Latina, na Fundação Memorial da América Latina, em São Paulo.

O evento foi moderado pelo diretor do Inpa, Adalberto Val, e pelo pesquisador do Inpe Carlos Nobre, além do próprio presidente da ABC, Jacob Palisque, e teve como debatedores o presidente do BNDES, Luciano Coutinho; o co-presidente do Conselho de Administração da Natura, Guilherme Leal; o diretor de Programas e Bolsas no País da Capes, Emídio de Oliveira Filho; e a diretora-geral do Instituto Amazônico de Investigações Científicas, da Colômbia, Luz Marina Mantilla Cárdenas.

Nos debates, ficou claro que os desafios para o Brasil se posicionar adequadamente dentro desse processo são tão grandes quanto os obstáculos. Explorar a floresta, mantendo-a em pé, não será fácil. De acordo com Carlos Nobre, do Inpe, a pecuária rende de US$ 20 a US$ 70 por ano/hectare; a soja, US$ 100 ano/hectare; e a extração da madeira, de US$ 200 a US$ 400 por um período de 20-25 anos/hectare. "Já o armazenamento de carbono, supõe-se que valha US$ 20 a tonelada de carbono", ressaltou.

Enquanto o carbono não for de fato um serviço ambiental rentável e os governos da região Norte não bancarem os incentivos necessários, é urgente encontrar alternativas para as atividades predatórias. "Há uma população que vive na franja da floresta, especialmente na fronteira do Centro-Oeste, com 15 a 20 milhões de pessoas que precisam de uma ocupação econômica com mais valor que as atividades predatórias", ressaltou Luciano Coutinho, do BNDES.

Transformar a biodiversidade da Amazônia em produto de valor agregado não será fácil. "Será necessário desvendar a riqueza que está escondida na floresta – algo que só poderá ser abreviado com o conhecimento via comunidades locais", disse Adalberto Val, do Inpa. Exigirá também mais investimentos em infraestrutura de pesquisa. "Costumamos dizer que todas as universidades e centros de pesquisas da Amazônia juntos não dão uma USP", brincou Val, referindo-se a essa limitação.

Atração de doutores

Para Jacob Palis, presidente da ABC, além de infraestrutura, serão necessários pesquisadores estimulados e engajados. "A única forma de isso acontecer é buscar uma remuneração maior para atrair doutores para a região", ressaltou.

"Caminhamos para um programa em que nenhum aluno da região Norte deixará de fazer mestrado ou doutorado por falta de bolsas", disse Emídio de Oliveira Filho, da Capes. "No entanto, a velocidade de concessão de bolsas ainda é pequena, quando o necessário seria crescer o dobro da média das outras regiões", acrescentou.

A explicação para isso, além do crescimento lento da população na região, é a falta de estrutura dos programas de pós-graduação para atender mais alunos. A título de exemplo: o Brasil tem 3.891 cursos de pós-graduação; toda a região Norte, apenas 189 (4,86%). "A Capes não tem tido problemas financeiros para conceder bolsas, mas faltam candidatos", disse.

A urgência em definir caminhos e adotar medidas foi unânime entre os conferencistas. O Brasil está diante de uma encruzilhada estratégica: ou se posiciona rapidamente para se tornar líder em desenvolvimento ambiental sustentável ou corre o risco de ser a "vanguarda do atraso", como disse Guilherme Leal, da Natura.

 

Agência Fapeam

Com informações do Jornal da Ciência

 


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