Ecossistema amazônico chama a atenção dos cientistas
16/07/2012 – Desde a antiguidade, o homem teve a natureza como aliada no desenvolvimento de tecnologias inovadoras com o intuito de melhorar sua qualidade de vida. O fogo, a roda e a cerâmica foram elementos que o auxiliaram a sobreviver às ameaças circundantes.
Nesse contexto, a experimentação de materiais resultou nos primeiros conceitos de ciência que tinham como fonte suas crenças e relação com o Cosmo, com Deus, com a Ciência e a Tecnologia. Mas, a busca desenfreada pelo poder, obrigou o homem a degradar a natureza em favor do progresso e do consumismo, impulsionado pelo avanço tecnológico, não tendo por muito tempo preocupação com a preservação dos recursos naturais.
De acordo com o relatório intitulado “Pessoas resilientes, planeta resiliente: um futuro que vale escolher”, do Painel de Alto Nível sobre Sustentabilidade Global da Organização das Nações Unidas (ONU), realizado em janeiro de 2012, que norteia as necessidades, conclamando aos governantes a desenvolverem medidas visando à sustentabilidade, é preciso reconhecer que nos últimos anos, o tema em pauta na mídia são as ações governamentais e não governamentais em prol da conservação dos recursos naturais.
Meio ambiente e Ciência da Computação
Para alguns cientistas que vivem na região amazônica, a visão sobre sustentabilidade não é algo tão recente, já que é impossível desenvolver pesquisas isoladas diante da peculiaridade regional em meio à dimensão continental que a região apresenta.
Para o doutor em Ciência da Computação e professor do Instituto de Ciência da Computação (Icomp) da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Ruiter Caldas, a definição de sustentabilidade influenciou até mesmo a organização institucional e o planejamento das ações. E, desde os anos 1990, a criação de uma cultura sobre a pesquisa de ponta voltada à realidade local vem sendo articulada.
O Icomp realiza pesquisas de alta relevância, em áreas específicas da computação, que foram adequadas à realidade regional. Em alguns casos, pesquisas com resultados satisfatórios em outros países, quando aplicadas em nossa região, precisam passar por uma adaptação. O pesquisador afirmou que em outros lugares do País seria até possível instalar a fibra ótica, mas pelas condições geográficas de algumas regiões locais ela se torna inviável, por conta do altíssimo custo na obtenção da internet via satélite.
Para o professor, a adaptação do barco regional, meio de transporte comum na Amazônia, seria um bom suporte para a transmissão de informações. Essa ideia consiste em adaptar um barco, transformando-o em um núcleo de comunicação que ao passar pelas cidades, trocaria informações no padrão de temporização, tudo sem fio. Apesar da lentidão, haveria circulação da informação.
“Nós temos barcos que navegam os rios da Amazônia e não tendo internet disponível nos rincões amazônicos, eles levariam um volume de dados, se conectando aos servidores locais em movimento, sem precisar parar”, explicou.
Outro experimento apontado pelo professor é o estudo utilizando sapos, visando avaliar a saúde de uma localidade. Os pesquisadores avaliam as condições do meio ambiente por meio da interpretação da vocalização dos enuros (sapos). A presença destes animais numa região significa que o ambiente é saudável e o sumiço deles, significa a alta degradação ambiental.
“O processo se dá com a utilização de sensores sonoros para a captação da vocalização, posteriormente é realizada a interpretação dos resultados, proporcionando uma análise ecológica do terreno”, comentou o professor.
Os pesquisadores do Icomp atuam fortemente em pesquisa e extensão, concentrando a formação de novos pesquisadores por meio do Programa de Educação Tutorial (PET) de Ciência da Computação, contando com o fomento de importantes agências e instituições, sendo apoiados oito projetos de pesquisa pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), quatro pela Fapeam, duas pela Financiadora de Estudos e Projetos do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (Finep/MCTI) e dois projetos com a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), atuando nas diversas linhas para a obtenção de recursos.
Ecossistemas comunicacionais na era da interatividade
A ideia de ecossistema vivo aplicada aos processos comunicacionais tem fomentado a reflexão nos dias atuais. Para o doutor em Ciências da Comunicação e professor do Programa de Mestrado em Ciências da Comunicação (PPGCCOM) da Ufam, Gilson Monteiro, a internet interage com as pessoas a partir de processos comunicacionais mais atuantes do que os meios de comunicações analógicos.
A questão ambiental, dentro desse processo, é bastante ampla e traz conceitos, definições e métodos das ciências naturais para o campo da comunicação.
As novas estruturas comunicacionais chamam atenção no âmbito científico, pois surgem a cada dia novas relações intermediadas pelas tecnologias da informação e da comunicação. Para o professor, a sociedade necessita se organizar frente às tecnologias emergentes, como gerenciar as organizações comunicacionais e midiáticas.
De acordo com Monteiro, as reflexões sobre essa temática podem ser consolidadas a partir das ações do Programa de Mídias Digitais da Ufam, que dentre suas metas tem a criação de um ‘prédio inteligente’, reutilizando os recursos naturais por meio da captação da água e da energia sustentável. O projeto conta com fomento do Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES) para a construção das instalações.
“O nosso sonho é transformar a Ufam num ecossistema que seja totalmente digitalizado no futuro. A ideia de ecossistema eu não posso destruir a floresta, eu tenho que conviver com ela, me adaptar ao processo porque assim eu vou fazer parte desse processo de vida”, afirmou.
O pesquisador coordena o Grupo de Pesquisa Interfaces que atua intensamente nessas reflexões entre o homem, a tecnologia e a comunicação. O Interfaces já realizou pesquisas de relevância, destacando-se sobre a história dos meios de comunicação em Manaus. O grupo também desenvolveu por dois anos um caderno de Ciência e Tecnologia (C&T) no jornal impresso Em Tempo e lançou duas edições impressas da revista científica Intermais.
Essas ações foram realizadas com fomento da Fapeam. A criação do Programa de Mídias Digitais, proporcionou outros desdobramentos para a criação da WebTV, da Webradio, além de outros produtos digitais comunicacionais.
Ecossistemas organizacionais e realidade amazônica
A preocupação com o desenvolvimento da Amazônia e de seus povos perpassa os muros da universidade e ganha dimensões em diversas esferas como o Governo, a iniciativa privada e a sociedade civil organizada, dentro de um contexto ecossistêmico e sustentável.
Com a criação dessa sociedade mais atuante, no século 20 e as mudanças socioeconômicas e culturais baseadas no tripé governo, setor privado e sociedade civil organizada surgiram um novo paradigma da governança global, em que cada elemento interage sistemicamente com o outro, amparado no conceito da sustentabilidade.
Para o secretário-geral da Fundação Rede Amazônica (FRA) e doutor em Gestão Global, Estratégica e Desenvolvimento Empresarial, Mário Costa, a fundação investiu no progresso e na integração da Amazônia por meio das empresas de comunicação situadas em cinco Estados da Região Norte. “A Fundação conta com um departamento específico sobre Estudos Amazônicos, visando investimentos em pesquisa, seguindo a tendência de grandes organizações mundiais”, afirmou.
A aproximação com o Polo Industrial de Manaus (PIM) e o interesse pelo desenvolvimento do Estado, priorizando as questões regionais, permitiu ao pesquisador desenvolver a tese de doutorado intitulada ‘A influência das organizações do terceiro setor no comportamento social das empresas do Polo Industrial de Manaus’, que tem como foco novas formas de atuação organizacional em que há uma preocupação, não somente com o negócio, mas com a relação com o meio ambiente e com a sociedade.
Segundo o pesquisador, é possível perceber claramente que as empresas com certificação, mais antigas, multinacional, tendem a ter um comportamento mais social e ambiental do que as outras, devido terem por conta da visibilidade que têm na sociedade.
“O PIM funciona como um verdadeiro laboratório de pesquisa porque você tem uma fotografia uma noção do que se faz no mundo aqui dentro dessa região. Aqui estão as maiores empresas do mundo, referências mundiais de diversos tamanhos, nacionalidades, culturas e estruturas”, explicou Costa.
Edilene Mafra – Agência FAPEAM