Inovação, inovadores

30/03/2011 – Meritória a iniciativa da Secretaria de Estado de Ciência e Tecnologia do Amazonas (Sect-AM) criando o Fórum de Inovação do Amazonas. A primeira reunião do oportuno coletivo atraiu a atenção de representantes de, pelo menos, 27 instituições de ensino e pesquisa em funcionamento no Estado. Os pronunciamentos ouvidos durante a reunião alimentam esperanças de que os objetivos serão alcançados. 

Não obstante, repetiram-se as velhas e conhecidas queixas contra a discriminação sofrida pelas regiões Nordeste e Norte, da parte de órgãos da estrutura administrativa da União. Reiterou-se constatação assaz repisada, relativamente ao confinamento característico de entidades que, mesmo atuando em atividades correlatas, mantêm-se afastadas umas das outras. Quanto ao divórcio entre a academia e o mundo empresarial, as palavras de diversos interventores não foram diferentes.

Desde há muito, sentia-se a necessidade de superar situação que um dia chamei de diálogo de surdos: ninguém ouve o que o outro tem a dizer, aumentando a confusão, sempre que aumenta o tom da discussão. Com isso, perde sobretudo a sociedade.

Se, no que se relaciona à academia, permanece e se acentua a impressão de ser ignorada pelos empresários, destes vem a queixa de absoluto afastamento dos pesquisadores e cientistas dos problemas do cotidiano empresarial.

No início da década de oitenta, executamos projeto a que demos o nome de VOE- Visita Orientada às Empresas. Era uma tentativa de romper a situação surreal acima identificada e abrir a audiência das diferentes partes em relação. Imaginavam-se beneficiários do projeto, de um lado a academia, por seus professores e estudantes; do outro, as empresas. Disso resultariam ganhos, ampliados, para a sociedade.

Seria lícito esperar produtos de melhor qualidade, mais baratos e disponíveis a trabalhadores também beneficiados pela aproximação academia-empresa. Afinal, a contribuição daquela ao processo produtivo permitiria o pagamento de melhores salários aos empregados.

Por motivos que não vem a pelo mencionar, o projeto durou apenas um ano. Mal saímos da direção do Departamento de Administração da Faculdade de Estudos Sociais, ele teve o destino da gaveta. Não importou a repercussão favorável obtida no meio empresarial. Nem o empenho de professores e estudantes.

Vê-se, agora, novo e mais credenciado esforço, desta vez sob a coordenação da própria Sect-AM, com o importante apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas – FAPEAM. Não bastasse isso, também a Afeam – Agência de Fomento do Estado do Amazonas esteve presente na reunião, por seu próprio presidente, Pedro Falabela.

É quase certo que grupos (ou comitês, como preferiu o representante do Sebrae-AM) serão criados dentro do fórum, para discutir mais profundamente os temas que lhes forem submetidos, respeitadas as especialidades. A providência, à primeira vista e diante do inegável entusiasmo e desejo de participação dos presentes, pode levar a bons resultados.

Há, porém, uma questão que não pode escapar à preocupação dos interessados, a partir do secretário Odenildo Teixeira Sena: a inovação não pode dar-se apenas nos processos e produtos. Sempre serão seres humanos os responsáveis, se não pela confecção total de um produto ou a coordenação de um processo, apertando este ou aquele botão de sofisticada máquina. O que basta, para revelar a fundamental importância do homem em qualquer processo inovador.

Não é sem razão que todos os revolucionários, de Jesus a Che Guevara, não omitiram seu cuidado em criar um homem novo. Sem ele, qualquer tentativa de inovar, seja o que for, nasce fadada ao mais retumbante fracasso. Como tem sido, ao longo dos tempos.

Insira-se, portanto, em cada grupo (ou comitê) que seja formado, o sentimento humano, muitas vezes (eu ficaria mais feliz se dissesse SEMPRE) presente em estudiosos das ciências sociais.

Condicionado a paradigmas vigentes, o ser humano muitas vezes não pode ir além de soluções convencionais. É nas relações humanas, seja no lar, seja na fábrica, que tais padrões se formam e consolidam, perenizando práticas que, reconhecemos agora, precisam ser alteradas. Façâmo-lo, com a coragem necessária!

José Seráfico Presidente da Fundação Amazônica de Defesa da Biosfera

Artigo publicado no site da Fundação Amazônica de Defesa da Biosfera


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