Noites interrompidas

Médicos e enfermeiros estão habituados ao desarranjo que uma temporada, ainda que curta, nos centros de terapia intensiva provoca na vida dos pacientes. Durante a recuperação de uma pneumonia aguda ou de uma cirurgia, dorme-se além do normal durante o dia ou se tem insônia à noite e a fome costuma surgir em horários diferentes dos habituais.

Não é só. Também a temperatura do corpo, os batimentos cardíacos e a produção de hormônios passam a oscilar em um ritmo diferente do ciclo de 24 horas que regula a vida dos seres humanos e de diversos outros animais, como se o relógio interno parasse de funcionar de maneira adequada.

Até recentemente se acreditava que essa dessincronização entre o funcionamento do organismo e o mundo externo fosse conseqüência da iluminação artificial dos centros de tratamento intensivo e, por essa razão, já se propôs a instalação de janelas nessas salas para que os pacientes pudessem perceber quando é dia ou noite. Mas essa estratégia se mostrou pouco eficaz e agora já é possível entender o porquê.

Experimentos conduzidos pela equipe da farmacologista Regina Pekelmann Markus, da Universidade de São Paulo (USP), indicam que a causa dessa dessincronização não é a impossibilidade de identificar se fora do hospital está claro ou escuro.

A origem desse desequilíbrio parece ser a própria inflamação provocada por um agente infeccioso ou pelas lesões de uma cirurgia, que interrompe temporariamente a produção do hormônio melatonina. Produzido pela glândula pineal, situada na base do cérebro, esse hormônio é uma espécie de senhor do tempo molecular, que ajusta os ponteiros do relógio biológico com os períodos de claro e escuro, indicando ao organismo se é dia ou noite, inverno ou verão.

Agência Fapesp

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