Pesquisa revela liderança feminina em comunidade indígena
29/06/2011 – A figura do pajé ou xamã esteve sempre presente na cultura das sociedades indígenas amazônicas. É ele o responsável, desde os primórdios, pela cura espiritual e pelas decisões políticas na comunidade indígena. A pesquisa intitulada ‘Vida e trabalho da mulher indígena: o protagonismo da Tuxaua Baku na comunidade Sahu-apé, Iranduba/AM’, revela que essa função, agora, pode ser exercida por uma mulher.
Zelinda da Silva Freitas ou Tuxaua Baku, é uma mulher que manteve firme suas decisões para não perder sua identidade cultural. Conhecedora das ervas para obtenção da cura de doenças, ganhou o respeito de parentes e do Conselho dos Anciãos Sateré-Mawé, que antes, era apenas constituído por homens, segundo informou a mestra em Sociedade e Cultura na Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Solange Pereira do Nascimento.
Siga a FAPEAM no Twitter e acompanhe também no Facebook
Nesse sentido, o estudo desenvolvido pela pesquisadora teve por objetivo verificar e apontar os fatores socioculturais que concorreram para estabelecer o protagonismo indígena da Tuxaua Baku à frente da comunidade, dando ênfase às relações de gênero e poder e ao seu reconhecimento social pelo seu povo e a comunidade envolvida. A pesquisa contou com o financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM), por meio do Programa Institucional de Apoio à Pós-Graduação Stricto Sensu (Posgrad).
Ressignificação da cultura
Segundo a pesquisadora, as mulheres indígenas da Amazônia sempre exerceram um papel importante na região, seja como agricultoras, extrativistas e pescadoras, ou como organizadoras de comunidade. Esse espírito obstinado marcou a trajetória da Tuxaua Baku desde a migração para Manaus até a comunidade Sahu-apé, que trouxe novos significados a sua vida. Diante disso, Nascimento analisou os processos socioculturais da etnia, destacando a sua ressignificação no contexto de deslocamentos da Amazônia contemporânea. “Apontamos todas possíveis relações que se estabeleceram ao longo do tempo e que tornaram possível o reconhecimento do protagonismo feminino em meio à dominação de gênero”, afirmou.
Conhecimento tradicional sistematiza a construção do ser
A pesquisadora comenta que a prática em lidar com as ervas, para os Sateré-Mawé ou como também para todo o mundo indígena, é fazer parte do mundo espiritual, permitindo assim, dialogar com os espíritos da mata, das águas, dos céus e da terra. “Adentrar nesse universo transcendental de um discurso elaborado, permite entender que esse processo vai além da cura por meio das ervas, mas por um entrelaçamento daquilo que nos constitui enquanto ser vivo – corpo e alma”, disse.
Contribuição da pesquisa
A contribuição da pesquisa ao meio científico e, principalmente para a Amazônia, consiste na visão da figura da mulher, deixando de ser apenas reprodutora, agricultora e sem participação política, mas sim servindo como uma ponte de ligação entre a cultura dos antepassados e a possibilidade de diálogo entre a sociedade não indígena, finaliza a pesquisadora.
Apoio da FAPEAM
Para Nascimento, a FAPEAM é de fundamental importância no processo de construção da ciência no Amazonas. “Sem a FAPEAM, eu não saberia como pensar as pesquisas e a divulgação das pesquisas na Amazônia. Ela é a instância primordial junto às universidades para tornar possível o conhecimento e abrir a Amazônia ao mundo na perspectiva da ciência”, disse.
Sobre o Programa
O Programa Institucional de Apoio à Pós-Graduação Stricto Sensu (Posgrad) consiste em apoiar, com bolsas de mestrado e doutorado, e auxílio financeiro, as instituições localizadas no Estado do Amazonas que desenvolvem programas de pós-graduação Stricto Sensu credenciados pela Capes.
Sebastião Alves – Agência FAPEAM