Processo de doação de órgãos é preocupante no AM

Pesquisa desenvolvida por graduandos do curso de Medicina, da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), expõe a falta de conhecimento de grande número de profissionais da área de saúde que atuam como intensivistas (responsáveis pelo acompanhamento de pacientes internados em Unidades de Terapia Intensiva), em unidades de saúde da rede pública do Estado, quanto ao processo de doação de órgãos, em especial, córneas. O resultado do estudo foi apresentado na manhã desta segunda-feira (23), durante o primeiro dia de realização da IV Mostra de Projetos, desenvolvidos no âmbito da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), por meio do Programa Amazonas de Integração da Ciência no Interior (PAICI), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam).

A investigação, que integra o projeto “Banco de Olhos – oportunidade de reintegrar o indivíduo na comunidade”, indica que, do universo de profissionais entrevistados, entre médicos, enfermeiros e técnicos, 57,7% não dispõe de conhecimentos sobre os procedimentos básicos adotados no processo de doação de córneas – incluindo o momento mais adequado para a retirada do órgão, e se ocorre mudança na aparência do doador. “Essa é uma demonstração evidente da falha do sistema de ensino na área de saúde no que se refere a esse tema”, diz a preceptora (tutora) do projeto, Cristina Garrido.

A pesquisa aponta ainda que 83% dos profissionais nunca tiveram a iniciativa de solicitar a doação do órgão a familiares de pacientes em óbito, seja por falta de conhecimento sobre o assunto, por puro receio em lidar com a situação ou mesmo por considerar que essa não é sua tarefa. “É preciso que os alunos sejam sensibilizados e saiam da faculdade cientes de seu papel nesse processo”, declara a coordenadora.

Uma das propostas resultantes do estudo é a criação de programas de orientação sobre doação-transplante em faculdades, cursos técnicos e residências médicas, bem como a realização de campanhas de esclarecimento sobre o assunto junto à classe médica, em especial, aos profissionais intensivistas. “Não adianta esclarecer a população sobre a importância da doação de órgãos se os profissionais da área não são bem informados”, afirma Garrido, fundadora do Banco de Olhos do Amazonas em 2004.

 

Crescimento Profissional

 

Aluna do 5º período do curso de Medicina da UEA e bolsista do projeto Banco de Olhos, Manuela Ortiz foi a responsável pela aplicação dos questionários que subsidiaram a execução da pesquisa. Segundo ela, a participação no PAICI está sendo de grande importância para o seu crescimento profissional. “Nunca tive experiência na área de pesquisa e esse projeto tem contribuído para expandir os meus conhecimentos”, comenta.

A bolsista destaca que, durante o trabalho de campo, teve a oportunidade de atuar como multiplicadora, uma vez que, além de colher dados para a pesquisa, buscou esclarecer os profissionais sobre a necessidade de entender o assunto e atuar na sensibilizacão da sociedade. “Todos os profissionais entrevistados gostaram de se informar sobre o assunto e dispuseram-se a orientar melhor os familiares de seus pacientes”.

Banco de Olhos

O Banco de Olhos do Amazonas foi criado em 2004 para receber doações de córneas. A unidade funciona 24 horas, nas dependências do Hospital Adriano Jorge, e conta com médicos capacitados para realizar o processamento da córnea, da doação ao envio para o transplante, assim como prestar os devidos esclarecimentos aos interessados.

Desde sua criação, foram realizados 286 transplantes no Amazonas. Apesar do número crescente nos últimos meses, a quantidade de doações, segundo a diretora Cristina Garrido, é pequena em relação a outros Estados e não consegue suprir a demanda – cerca de 500 pessoas estão na fila de espera.

A atual legislação indica que todas as pessoas são doadoras em potencial, por isso, não é necessário nenhum documento anterior. A decisão pela doação fica a critério dos familiares. A sede do Banco de Olhos do Amazonas está localizada na Av. Carvalho Leal, 1778, Cachoeirinha. Informações por meio do telefone 3301-4789.

Evento

A IV Mostra de Projetos marca o encerramento do exercício 2007-2008 do PAICI, implantado pela Fapeam há quatro anos. A coordenadora do programa na UEA, Hellen Emília Souza, fez uma avaliação positiva das atividades desenvolvidas, até então, durante a abertura do evento, ressaltando que atualmente o PAICI engloba pesquisas nas áreas de Odontologia, Medicina e Enfermagem, e conta com 290 bolsistas, de diferentes municípios do Estado, entre os quais Coari, Tefé e Humaitá. “O PAICI é uma oportunidade ímpar para os bolsistas”, diz a coordenadora, que parabenizou a Fapeam pela iniciativa e ressaltou o papel da entidade no desenvolvimento da ciência em municípios do interior.

Durante o seu pronunciamento, a diretora técnico-científica da Fapeam, Elisabete Brocki, comentou que o PAICI trouxe frutos importantes e está possibilitando aos alunos que atuam como bolsistas o contato com a realidade do campo das pesquisas. Por outro lado, o diretor da Escola de Ciências da Saúde da UEA, Joaquim Silva, fez questão de frisar que o programa tem um papel ainda mais relevante, uma vez que traz em seu bojo a proposta da interdisciplinaridade. “A iniciação científica é importante tanto na vida cotidiana quanto na profissional”, diz ele.

No primeiro dia do evento, foram apresentados 23 projetos. O mesmo número de trabalhos será apresentado nesta terça-feira, quando ocorre o encerramento da mostra.

A Fapeam renovou esse mês, por 12 meses, 239 bolsas do PAICI. O total de R$ 1.032.480 foi aplicado. Também foi concedida cota adicional de 111 bolsas, pelo mesmo período, no valor de R$479.520,00, além de auxílio-pesquisa no valor de R$ 151.200,00 mil.

Por decisão do Conselho Diretor da Fapeam, bolsistas que estiverem inadimplentes não terão o benefício renovado. A mesma decisão estabelece prazo de 60 dias para a implementação das bolsas.

Lisângela Costa – Agência Fapeam

 

 


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