A arte de partejar


Trazer ao mundo um ser humano é algo forte. E pelas mãos de parteiras experientes milhares de mães já experimentaram essa emoção. As parteiras são peças chaves para as discussões sobre a humanização do parto, sobre o respeito às gestantes e aos recém-nascidos. Elas não são somente uma resposta para áreas carentes de atendimento médico. Mais do que isso, elas representam outro jeito de compreender o nascimento.

E quem melhor do que uma parteira para falar sobre a arte de partejar? Acompanhe a entrevista que a parteira Irene Leandro de Oliveira, de 61 anos, concedeu ao Instituto Mamirauá durante o 11º Encontro de Parteiras Tradicionais do Médio Solimões, ocorrido em Tefé, de 2 a 5 de maio de 2015.

IM: Dona Irene, a senhora pode explicar o que é ser parteira?

I: Bem, no meu ver, eu sou parteira com o dom de Deus. Acho que puxei o dom da minha avó, que também era parteira. Teve uma vez que a mulher teve o bebê na chuva, embaixo de uma canoa. Minha avó me chamou para ir com ela. Aí eu pensei: ‘Ah, mas agora eu já sei, quando nascer um bebê eu já sei’. O primeiro parto que eu fiz eu tinha a idade de 12 anos. A minha cunhada estava aperreada em casa, mandou me chamar para ver a barriga dela, que estava doendo. Aí a criança já vinha nascendo e eu tive que pegar. Não tinha por quem chamar. Desde aí eu venho ajudando as parturientes que precisam.

IM: Quantos partos a senhora já fez?

I: Estou com 161 partos realizados. Gosto do meu trabalho. De tudo eu faço e o parto é um amor para mim. Tem gente que acha que a parteira não é nada na comunidade, mas ela é uma peça principal da comunidade. Eu digo sempre, quem tem uma parteira na sua comunidade está rico, porque tem muito que não tem.

IM: A senhora costuma fazer cursos, participando de encontros?

I: Participo de todos os cursos que tem para as parteiras. Em cada canto desse vou aprendendo um pouquinho e digo também um pouco.

IM: A senhora poderia contar o que acontece antes de um parto?

I: Tem mãe que me procura logo que sai grávida. Então, eu indico para fazer o pré-natal. Na minha área já não têm mulheres teimosas mais não. Hoje elas escutam e fazem esses acompanhamentos. Porque eu não vou saber como está o bebê dentro. Tem alguns partos que será cesárea, entretanto, a gente já sabe quando é parto cesáreo.

IM: E durante o parto?

I: Filho, dizia minha avó, nasce só na hora que Deus. Por isso que eu não forço. A mulher vai procurar a posição para ela ganhar o bebê. Se ela quiser deitar, se ela quiser sentada, se ela quiser na rede, onde ela quiser. Pelo menos ela fica mais folgada. O parto também deve ser muito higiênico. A gente tem que preparar a mulher e o ambiente onde ela vai ganhar o bebê. Quando ela manda me chamar, eu vou para ajeitar. Porque quando me avisa antes, fico atenta. Se tiver parto para esse mês, eu não saio da minha casa, tiro aquele mês todinho lá. Esperando a qualquer hora e momento.

IM: O que a senhora faz depois do parto?

I: Eu ajeito o bebê primeiro, depois eu vou ajeitar a mãe. Eu acompanho três dias.

IM: A senhora pensa em parar?

I: Só quando eu morrer. Quando eu não puder mais pegar nada, eu ainda quero estar lá, pelo menos incentivando alguma parteira a continuar.

Com informações de Vanessa Eyng Instituto Mamirauá 

 

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