“A Ciência muda a vida das pessoas e elas precisam entender isso como um retorno que traz melhorias”


Doutor em Medicina Tropical, pesquisador Marcus Lacerda fala sobre o cenário da malária no Amazonas

Marcus Lacerda

Em junho de 2017 Manaus sediará a “6th Internacional Conference on Plasmodium vivax Research – 6ª Conferência Internacional sobre Pesquisa de Plasmodium vivax”, que debaterá os principais meios de combate à malária. O responsável pelo cômite organizador do evento, Dr. Marcus Lacerda, conversou com a Agência Fapeam e falou sobre o cenário desta doença no Amazonas e as expectativas para sediar um evento de grande porte como esse, que contará com pesquisadores de todo o mundo.

Marcus Lacerda é doutor em Medicina Tropical, pesquisador do Centro de Pesquisas Leônidas e Maria Deane (Fiocruz-Amazônia) e atualmente é o diretor de Pesquisa da Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD). Colaborador do programa de pós-graduação em Medicina Tropical da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), também e professor adjunto na Universidade Estadurl de Kent, nos Estados Unidos.

Lacerda é membro, ainda, do Comitê Técnico Consultivo do Programa Brasileiro de Controle de Malária, do Comitê de Antimaláricos do Ministério da Saúde do Brasil e, também, consultor ocasional da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre a Malária P. Vivax.

Agência Fapeam: Esse é um dos maiores eventos sobre malária do mundo. Como foi feita a escolha por Manaus?

Marcus Lacerda: Manaus tem hoje um grande centro de pesquisa em malária vivax, então é natural que nós tenhamos nos apresentado lá na Indonésia, no último evento, para sermos a sede dessa conferência, e ganhamos, porque aqui se produz muito conhecimento sobre o parasito. Temos um número grande de pesquisadores aqui em Manaus que trabalham com Malária vivax há muito tempo, então é natural que o evento aconteça aqui.

AF: E como está o cenário da malária no Amazonas?

Marcus Lacerda: A malária se estabilizou nesse último ano, mas nós já vínhamos numa tendência de queda no número de casos, porém, não conseguimos baixar ainda mais esse número. Então, é preciso que discutamos novas ferramentas de combate, porque a meta agora é eliminar esse parasito, zerar o número de casos para que a malária não retorne. Esse é o grande desafio. A grande vantagem é que no Amazonas nós temos a predominância da Malária vivax, que é menos letal e menos perigosa do que a outra malária. Porém, temos visto ainda muitos casos graves de infectados, casos de anemia desencadeados pela malária, além do que, ela tira a pessoa da escola, do trabalho, e causa um impacto social muito grande para a nossa população. Por isso estamos intensificando o combate.

AF: A OMS determinou uma meta de erradicar a malária de pelo menos 35 países até 2030. Quais são as medidas, que o senhor pode destacar que estão sendo feitas nessa área?

Marcus Lacerda: O controle, o diagnóstico e o tratamento são mais rápidos hoje, temos usado, também, novas medicações e mosquiteiros, por exemplo. Mas para nós chegarmos nessa meta até 2030, vamos ter que lidar com a Malária vivax que é o grande problema. A Malária falcíparo é mais fácil de ser controlada. Geralmente, o falcíparo acaba e o vivax continua sobrevivendo. Essa é a nossa grande preocupação: o que nós vamos fazer para controlar e eliminar essa Malária vivax? E é para encontrarmos essa resposta, que estamos intensificando as pesquisas.

AF: Em relação ao tratamento, o que tem sido feito aqui no Amazonas em termos de cura e teste rápido?

Marcus Lacerda: Vão ser discutidos, na reunião, novos tratamentos. Vamos ter, provavelmente, os resultados preliminares de um grande estudo que está sendo feito, inclusive aqui em Manaus, mostrando um tratamento contra o parasito da malária que é feito em dose única. Esse tratamento é patrocinado por uma grande indústria farmacêutica e, em junho, eles devem fazer a apresentação desses dados na conferência. Esse é o ponto mais alto que nós esperamos na reunião.

AF: A conferência teve início em 2002. De lá para cá, quais são os avanços nas pesquisas que o senhor pode destacar?

Marcus Lacerda: Hoje nós conhecemos melhor como é que ocorre a recaída do parasito, e esse tem sido um grande progresso. Nós não temos tantas vacinas em desenvolvimento, mas ao longo desses anos nós vimos grandes avanços em estudos preliminares sobre vacinas para esse tipo de malária. Porém, é importante lembrar que a vacina de malária não serve para toda malária. Cada parasito tem de ter uma vacina específica e esse é o grande desafio da malária vivax.

AF: E sobre fazer Ciência na Amazônia, quais são os grandes desafios?

Marcus Lacerda: São dois grandes desafios: o primeiro é o logístico – importação de equipamentos, manutenção, compra de reagentes, entre outros, principalmente porque nós estamos numa região em que o custo de deslocamento desses materiais de pesquisa de laboratório é muito caro; o segundo é a formação de pessoal, com bons programas de pós-graduação que formem grandes cientistas, pois ainda temos poucos aqui na região Norte.

AF: Como o senhor destaca o papel da Ciência na sociedade?

Marcus Lacerda: A Ciência precisa ser vista como algo que, de fato, muda a vida das pessoas. Elas precisam entender que algo que mudou a vida delas teve origem em um projeto científico, e é isso que a gente quer mostrar especificamente nessa reunião: projetos que foram feitos aqui em Manaus e que vão ser demonstrados para a comunidade científica, com a possibilidade real de que aquilo mude a vida delas. Por exemplo, em vez de tomar o comprimido para malária durante 14 dias, o infectado vai tomar em apenas uma única dose, um comprimido referente aos 14 dias de tratamento. Isso é um avanço e isso precisa ser reconhecido.

Ada Lima – Agência Fapeam

Foto: Érico Xavier – Agência Fapeam

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