Trajetória na Ciência- Entrevista com a pesquisadora Vera Val


O Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, é uma data de reflexão e que marca a luta pela igualdade de gênero na sociedade. Em 2020, a Fapeam incluiu em seu calendário o movimento Mulheres e Meninas na Ciência, que neste ano traz o tema “A cientista que sou saúda a cientista que mora em você”, propondo a empatia entre mulheres e meninas para estimular uma maior presença das mulheres na ciência e na gestão de projetos científicos.

Com intuito  de compartilhar histórias e experiências de mulheres cientistas que desenvolvem pesquisas no Amazonas, a equipe de comunicação da Fapeam entrevistou a pesquisadora  do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa-MCTIC), Vera Val.

Dra. Vera Val - Lançamento Short Notes - INCT ADAPTA  - Fotos Érico X. _-19Vera Val tem pós-doutorado  em adaptações bioquímicas ao meio ambiente, com foco de pesquisa na utilização de ferramentas  modernas para entender como os peixes se adaptam às mudanças ambientais naturais e antrópicas. Com interesse pelo processo evolutivo dos peixes da Amazônia. Confira a entrevista!

1. Como surgiu a sua história com a ciência?

Venho de uma família onde a profissão do ensino predominava – avó professora, mãe professora, tias professoras, o que inicialmente me fez pensar em ser professora. Além disso, tive professoras nos cursos primário, ginasial e colegial (como se chamavam à época) que marcaram muito meu aprendizado e influenciaram minhas escolhas. Muito me agradava desenhar e eu sempre fui forte em matemática e ciências exatas. Depois de crescida, o mundo girando em minha volta, muitas profissões atraentes, almejei ser arquiteta, em função da minha facilidade com exatas e desenho. Entretanto, sempre houve uma quedinha para a natureza em mim. Meu pai foi, durante muito tempo, chefe da carteira agrícola do Banco do Brasil em Mogi das Cruzes (estado de SP) onde morei até meus 12 anos, a qual hoje em dia é um grande Polo Hortifrutigranjeiro dos mais produtivos do país. Acompanhava muito as visitas a sítios produtores de frutos, granjas produtoras de frangos; visitávamos qualquer empreendimento que havia recebido financiamento porque meu pai fazia questão de acompanhar in loco a aplicação dos recursos. Pêssegos embrulhados em saquinhos de papel – um a um – em árvores era uma das maneiras que os produtores encontravam para evitar pragas. Galinhas com óculos para não olhar para frente e evitar bicadas nas demais (isso porque eram criadas em grande densidade), o que hoje já não ocorre. Tudo isso me encantava na infância. Assim, o bichinho da agronomia me vinha à mente de vez em quando. Até que, ao cursar o terceiro ano do colegial (o que hoje é denominado segundo grau) a biologia me pegou pra valer. Tanto o professor do Colégio Estadual (naquela época as escolas públicas eram bastante fortes) como todos os professores de biologia do “Cursinho para Vestibular” que eu frequentava à noite, levaram a me apaixonar por biologia e então, mesmo não sendo uma carreira atrativa do ponto de vista financeiro, eu me joguei de cabeça.

Sabia que iria ser professora de qualquer jeito e talvez conseguisse me tornar uma pesquisadora, quiçá uma cientista!! Assim foi que, no ano seguinte, lá estava eu saindo de casa para frequentar uma Universidade Federal (à época, bastante nova) em São Carlos, cidade a duas horas de Campinas, onde cursei ginásio e colegial. Muita aventura pra mim, com 18 anos.

Ao final do primeiro ano já havia mergulhado de cabeça no mundo dos seres vivos, da origem da vida, da Ecologia (forte vertente do curso na UFSCar) e foi assim que iniciei um estágio voluntário em um laboratório que desenvolvia trabalhos científicos, optei pelo Bacharelado e segui carreira, realizando, também na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), meu mestrado em Ecologia e Recursos Naturais (o qual realizei com bolsa independente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo   (Fapesp). O mestrado me deu chance de aprender muito com meu orientador, o saudoso Dr. Arno Rudi Schwantes, que entendia muito de evolução. As disciplinas também me deram muita base para o que viria a trabalhar no futuro. Ali, o avanço teórico que recebi foi muito forte, tanto em ecologia, como em bioquímica, teoria de sistemas, evolução. E foi então que iniciei meus trabalhos de campo e laboratório. 

2. E a sua carreira no Inpa, especificamente, como tudo começou?

Quando estava quase finalizando meu mestrado, houve um convite para participar de um programa denominado “Programa do Trópico Úmido” que abriu chances de migrar para locais onde havia poucos pesquisadores e que necessitavam recursos humanos com alguma qualificação além da graduação. Conhecemos o programa enquanto trabalhávamos no projeto temático ‘Tipologia dos Lagos’, que monitorou, por muitos anos, todos os aspectos limnológicos (ecologia aquática) em lagos formados por usinas hidroelétricas (UHE) em todas as bacias hidrográficas do estado de São Paulo. O projeto, financiado pela Fapesp, foi subdividido por regiões das bacias e nós trabalhamos durante dois anos e meio nas UHE dos rios Paraná e Pardo/Grande – esta era a terminologia que utilizamos à época – hoje muita coisa mudou. Durante o projeto eu realizei as coletas do meu mestrado que comparou peixes de ambientes lênticos (lagos de UHE) e lóticos (cachoeiras e corredeiras) sempre procurando estabelecer uma correlação dos animais com o ambiente, linha de trabalho que sigo até hoje; Adaptações ao Meio Ambiente. Durante esta fase, os dirigentes do Programa do Tropico Úmido me convidaram para migrar para Manaus e trabalhar no Inpa!! Eu havia pensado que eles iriam me convidar para trabalhar no Bioma do Pantanal e ao final me convidaram para trabalhar no Bioma Amazônia. Eu e mais dois colegas, um deles atualmente meu parceiro de trabalho e esposo, aceitamos e viemos em 1981. Assim, nós viemos com o intuito de trabalhar em outro grande Projeto, denominado “Projeto Jaraqui”; um projeto também enorme, com muitas abordagens de estudo; sempre com o intuito de um dia voltar para SP. Mas, como diz o caboclo – ‘bebeu água e comeu jaraqui, fica aqui’. 

A chegada foi a fase mais difícil pra mim. O Inpa era um mundo à parte e Manaus era uma cidade com costumes muito diferentes pra nós. Até nos adaptarmos foi bastante difícil. O que nos ajudava era o trabalho que só crescia, nunca diminuía e conhecer a floresta e os rios foi muito bom! A natureza nos encantou de tal maneira; a diversidade da floresta, de animais e a dimensão dos rios foram as características mais impressionantes pra mim. Ver o Rio Negro e ver o encontro das águas com o rio Solimões que é um fenômeno que turistas gostam de ver, nos despertou muitas perguntas como biólogos e pesquisadores. Até hoje nossa principal abordagem na ciência é como os peixes se adaptam a ambientes tão diferentes e como a história evolutiva levou a tal diversidade de espécies de peixes. De lá pra cá, muito foi estudado e descoberto, mas a cada descoberta surgia uma infinidade de novas perguntas; isso não acaba nunca!! 

O Inpa  também nos deu uma oportunidade única – a de realizar nosso doutorado e, depois, de atuar nos cursos de pós-graduação como professores orientadores. Ensinar estudantes desde a graduação, antes deles ingressarem na pós-graduação e, depois, orientar mestrandos e doutorandos foram e continuam sendo, para mim, meu maior prêmio. 

3. Quais foram as  conquistas mais marcantes ao longo da sua carreira?

Bem, as características mais marcantes ao longo de minha carreira científica foram muitas, mas um dos fenômenos que nos impulsionou durante nossos estudos foi o fato das águas da Amazônia apresentarem uma grande variação no oxigênio dissolvido na água; desde anoxia (total ausência de oxigênio à noite em alguns tipos de ambientes), hipóxia (disponibilidade de oxigênio muito baixa durante boa parte do dia e do ano), até hiperóxia (excesso de oxigênio, em particular durante o dia). 

Meus estudos abordam as adaptações ao meio ambiente e, em parte, dão subsídios à conservação de espécies. São 40 anos de trabalhos realizados com genética de populações para entender diversos processos, inclusive a formação de novas espécies, estudando metabolismo e suas alterações perante mudanças ambientais, aplicando este conhecimento em aquicultura (peixes em ambientes de cativeiro), em particular de espécies economicamente importantes como o tambaqui, sempre utilizando técnicas modernas e nos preocupando com a ação do ser humano sobre o meio ambiente, onde a poluição industrial e urbana são presentes. Na última década, nos dedicamos bastante a estudar mudanças climáticas e, para tanto, participamos de um INCT (INCT-Adapta) que fornece infraestrutura moderna para experimentos em que os peixes podem ser submetidos a salas onde o clima (temperatura, CO e Umidade) é controlado para os diferentes cenários previstos pelo IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas), tanto para 2050 como para o ano de 2100, tendo como controle os parâmetros medidos na floresta natural a cada dois minutos.

Eu sempre tive como meta a divulgação científica e, durante este período, realizamos vários eventos para dar mais coesão e estímulo aos cursos de PG. Por fim, realizamos uma exposição num Shopping Center de Manaus, ação financiada pela recém-criada Fapeam. A exposição foi um sucesso! Comemoramos então, os 30 anos de PG no INPA. Daqui a dois anos, serão 50 anos de pós-graduação que o Inpa impulsiona os cursos de Pós-Graduação visando cada vez mais a melhoria dos cursos!

O INPA é um mundo à parte até hoje e entre altos e baixos em financiamentos e pessoal qualificado, vamos nos ajudando e mantendo nossas tradições. Hoje, o Inpa conta, também, com um curso de Mestrado profissionalizante sobre Gestão de Áreas Protegidas (MPGAP), o qual vem realizando um excelente trabalho. Como lembrado, em 2023, a PG do Inpa comemorará 50 anos de criação de seu primeiro curso de PG – mestrado e doutorado em Botânica!

4-  Na sua visão, como você enxerga a participação de mulheres na produção científica no Amazonas?

As mulheres cientistas que atualmente trabalham na Amazônia são bastante produtivas e boas captadoras de recursos para desenvolver suas pesquisas. Muitas se destacam em suas áreas e oferecem ao mundo mais conhecimento de qualidade sobre a Amazônia e suas características. São, obviamente, reconhecidas internacionalmente e quase todas, senão todas, têm parcerias com pesquisadores e instituições internacionais. Devemos ter orgulho de sermos mulheres atuando na Amazônia. Algumas alcançaram o status de Bolsistas de Pesquisa 1A do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), com seus próprios méritos, e algumas são membros titulares eleitos para a Academia Brasileira de Ciências (ABC), o que muito me orgulha.

Há, logicamente, um desequilíbrio na concessão de recursos, títulos e também na participação em cargos de chefia, coordenação ou diretoria. Além disso, a mulher que atua na ciência na Amazônia tem que produzir muito para ser reconhecida e a maioria de minhas colegas que começaram no Inpa quando eu comecei, é muito produtiva e exerce sua profissão com muito sucesso, também tendo passado pela maternidade. Há muitas pesquisadoras de destaque, também, nas Universidades e Institutos de Pesquisas nos estados da região norte, e estas são reconhecidas internacionalmente. 

Portanto, eu enxergo a participação das mulheres na produção científica no estado do Amazonas como muito boa, podendo melhorar em quantidade (somos poucas perante o resto do país e do mundo), mas não deixando a desejar em qualidade e alcance, pois todas deixam legados muito importantes para a região. 

5- O que você diria para uma mulher/menina que está no começo da carreira de pesquisadora científica?

Eu diria o que sempre digo para todos os meus estudantes: “never giveup” (nunca desista). Persista em seu caminho. Não se apequene perante as adversidades da vida. Você vai encontrar muita injustiça durante sua vida, com você e com pessoas que te cercam. Algumas vezes, de pessoas, sejam homens ou mulheres, as quais têm poder e não sabem exercê-lo, outras, de colegas (também homens ou mulheres) que são desleais. Mas reflita, pense em todos os cenários possíveis do que aconteceu e que poderiam ter acontecido, e desenhe seu caminho futuro, se reinvente.

Também, sempre se sinta acolhida por aqueles que te formaram, ensinaram, te apontaram o caminho certo e que te amam. Nunca pense que você está sozinha, sem proteção. Resista a pressões, não permita abusos, não importa de quem seja, de um colega ou de um chefe. Por mais poder que esta pessoa tenha, você terá sempre amparo e proteção das pessoas à sua volta. Denuncie.

O empoderamento feminino passa por não se subjugar e não subjugar ninguém. A mulher não quer substituir o homem, não quer tomar seu lugar; quer, sim, caminhar junto e ter as mesmas oportunidades e direitos.

Por fim, eu diria: seja sempre um peixe que não tem garras, mas nada pra frente e segue sua meta; nunca se comporte como um polvo, cheio de tentáculos para abraçar mais do que pode, e fica parado no mesmo lugar sem ir a lugar algum.

Deixo aqui, uma frase que li recentemente como introito de um livro escrito por Melinda Gates, que destacou o que disse uma mulher sábia: Nosso maior medo é sermos poderosas além da medida” –Marianne Williamson.

Por: Jessie Silva

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  • 2021-02-23

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