‘Fazer ciência na Amazônia é um desafio que nós temos’


Doutor em Física e Atmosfera, Antônio Manzi destaca a importância da torre ATTO na Amazônia e afirma que a proposta é conhecer melhor a região e seus processos climáticos

Manzi

As mudanças climáticas têm sido um dos assuntos mais debatidos nos últimos anos. Na Amazônia, para realizar o monitoramento das manifestações atmosféricas na região foi lançada, em 2015, a torre ATTO (sigla em inglês de Amazon Tall Tower Observatory), visando a evolução dos estudos referentes à interação entre a floresta e a atmosfera.

Fruto de cooperação entre Brasil e Alemanha, a torre possui 325 metros de altura e está localizada em uma região remota, em meio à floresta no município de São Sebastião do Uatumã, a 150 quilômetros de Manaus.

Fazem parte da parceria que possibilitou a construção da maior torre já montada para pesquisas no mundo a Universidade do Estado do Amazonas (UEA), o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA/MCTI), o Instituto alemão Max Planck de Química, o Instituto Max Planck de Biogeoquímica (MPIC) e o Governo do Estado do Amazonas por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam).

A Agência Fapeam entrevistou o doutor em Física e Atmosfera, pela Universidade Paul Sabatier (Toulouse III), França, Antônio Manzi, coordenador brasileiro do projeto teuto-brasileiro Observatório Amazônico com Torre Alta (ATTO) e dos projetos em cooperação Brasil-Estados Unidos/DoE GOAmanzon2014 e GOAmazon Terrestrial Ecosystem – Geco.

Agência Fapeam: Quais são os desafios e as particularidades de fazer ciência na Amazônia?

Antônio Manzi: Fazer ciência na Amazônia sempre é um desafio que nós temos. Na Amazônia, a principal dificuldade é a logística, os acessos na floresta nem sempre são fáceis, por isso, precisamos de transporte especial. Os instrumentos de pesquisa sofrem muito com o clima, em parte pela umidade e outra com calor. Então é necessário trabalhar com equipamentos adaptados para região. Outro ponto que gostaria de destacar, é que na minha área de pesquisa, que é principalmente a física da atmosfera, não existem muitos profissionais atuando nessa nas instituições da Amazônia.

AF: As mudanças climáticas têm sido um dos assuntos mais debatidos da atualidade e acabou deixando de ser um objeto de estudo apenas do pesquisador, se tornou uma preocupação mundial. Em sua opinião, o que levou as pessoas a buscarem mais informações e a se preocupar mais sobre isso?

Antônio Manzi: Alguns eventos muitos severos e catastróficos envolvendo secas, inundações, tempestades muito severas, ondas de calor, inclusive na Europa, evento como o furacão Katrina, que provocou muita morte. A imprensa, em certo momento, fez uma cobertura massiva e divulgaram também durante anos as avaliações do painel intergovenamental para mudanças climáticas. Naquele momento, principalmente, na metade para o final da década passada houve uma conscientização da sociedade em nível global. Hoje em dia, a população está consciente que o problema existe, e que ainda se tem muito a avançar no combate das mudanças climáticas, principalmente, na redução de gases e efeitos estufas. Já houve uma redução nas taxas de desmatamento. Hoje os desmatamentos que ocorrem, principalmente nas regiões tropicais do planeta, contribuem com menos de 10% das emissões globais.

AF: Em 2015, foi realizado o lançamento da torre Atto, que permite o monitoramento de várias pesquisas simultaneamente. Como irá funciona a torre?

Antônio Manzi: Nós temos quatro grandes linhas pesquisas no projeto Atto. Como é um projeto de longa duração é importante que nossa equipe faça o monitoramento de toda a dinâmica da floresta. Isso é feito na maioria dos casos em parcelas permanentes que são inventariadas, a cada ano.  Ao longo do tempo podemos ter informações se as composições florísticas daquelas parcelas estão mudando, se essas mudanças são devido à concentração de gás carbônico e temperatura e, se afetam as espécies de maneira diferente. Isso pode levar a mudanças nas condições de competição entre as espécies. Pode ter mudança na composição florística. Mas, principalmente, observamos se a floresta está ganhando massa. Se ela esta estocando mais carbono, significa que ela estaria mais eficiente fazendo fotossíntese aumentando a sua biomassa, ou se esta estável, ou se com o tempo vai perder biomassa. Por exemplo, se esse aumento de temperatura global levar a uma mudança nos regimes de chuva, eventualmente, causando uma maior frequência de eventos extremos. Com vento muito forte, causando mortalidade das plantas, arvores, então, eventualmente podemos ter o maior número de taxa de mortalidade da floresta. Mas são hipóteses ainda. Estamos acompanhando diretamente fazendo inventários.

Outro trabalho é de química da atmosfera, que é a emissão, absorção de gases. Emissão e absorção de gases da atmosfera, gases reativos. O cheiro da floresta são gases emitidos pela floresta, muito importante na produção de chuvas na Amazônia.

Queremos conhecer melhor a Amazônia, os processos de transporte de energia de matéria na baixa atmosfera. Essas trocas de matéria e energia (calor sensível e latente) se dão por meio de processos rápidos e turbulentos. Tudo isso se junta às observações que fazemos de física de nuvem, então em superfície ou na torre temos instrumentos que mede, por exemplo, a quantidade e tamanho das gotas que estão chegando.

Pesquisador é coordenador brasileiro do projeto que estuda as mudanças climáticas na Amazônia, por meio da torre ATTO, instalada em 2015 no município amazonense de São Sebastião do Uatumã

AF: Quais são os benefícios desse estudo para região amazônica?

Antônio Manzi: Com a torre vamos melhorar muito as medidas em relação às trocas de gases carbônicos entre a floresta e atmosfera. Vamos medir o fluxo de gás carbônico em várias alturas acima da copa das árvores, continuamente, e ao mesmo, tempo associar as medidas de inventários florestais. Daqui a três décadas, por exemplo, vamos ter um histórico da dinâmica da floresta com medidas ecológicas e um conjunto de medidas na torre de trocas de carbono e outros nutrientes, entre a floresta e atmosfera. São duas técnicas complementares que vamos usar para monitorar o comportamento da floresta, principalmente em terra firme nesse processo que estamos vivendo em mudanças climáticas.

AF: De que forma essas pesquisas científicas impactam outras regiões e até mesmo outros países?

Antônio Manzi: É a maior estrutura da América do Sul, destinada aos estudos principalmente das florestas de terra firme na Amazônia. Claro que essa região amazônica tem influência no clima regional todo, seja América Central ou em outros países. O conhecimento que vamos gerar pode ser agregado nos modelos de previsão de tempo, poluição, climática, o que acaba beneficiando outras regiões.

Esterffany Martins – Agência Fapeam

Fotos: Érico Xavier – Agência Fapeam

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