Religião está na TV e no debate político, assim como nos ritos e práticas dos fiéis


Doutorando em História e Culturas Políticas pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e professor da UEA. Foto: Divulgação.

A religião está na televisão e no debate político com a mesma intensidade com que está nos ritos e práticas dos fieis. Foi o que explicou o pesquisador da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Diego Omar da Silveira, durante entrevista concedida à Agência FAPEAM. Ele disse que nos últimos anos as grandes instituições religiosas têm sofrido o impacto da perda de regulação sobre as experiências daqueles que creem e, cada vez mais, as pessoas se sentem livres para acreditar naquilo que lhes convêm e para frequentar várias igrejas ao mesmo tempo, por exemplo.

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Estes e outros assuntos são tratados por Silveira em quatro artigos contemplados pelo Programa de Apoio à Publicação de Artigos Científicos, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM). ‘As perspectivas da religião no Brasil e no Amazonas’ é o pano de fundo, no qual o pesquisador fala sobre o cenário menos normativo favorável para os estudos da religião.

Doutorando em História e Culturas Políticas pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Silveira salientou que durante muito tempo foram os próprios religiosos que construíram as análises da religião. “Hoje, felizmente, uma perspectiva laica é possível e podemos construir nossas pesquisas a partir das universidades e centros de pesquisa, colocando seus resultados em debate na comunidade acadêmica”. Confira a entrevista.

Agência FAPEAM – Qual a proposta dos artigos?

Diego Omar – Os artigos tentam dar conta de questões que correlacionam a religião e uma história cultural do político. Eles têm também uma relação com a imprensa e com a história intelectual, na medida em que investigam como a atuação dos grupos católicos na imprensa serviu para colocar a Igreja – ou pelo menos uma parte dela – a favor de correntes políticas mais conservadoras ou mais progressistas, dependendo do contexto analisado.

Amazonas ocupa o 11º lugar quando se trata da presença de pentecostais. Foto: Divulgação.

Amazonas ocupa o 11º lugar quando se trata da presença de pentecostais. Foto: Divulgação.

No século XIX, por exemplo, os jornais católicos estão praticamente todos alinhados com as tendências ultramontanas e fazem frente à política liberal do Império, em especial depois de 1850. Na segunda metade do século XX vários intelectuais católicos vão se engajar na luta pelos direitos sociais e políticos, denunciando a violação dos direitos humanos durante a ditadura. Um dos artigos trata da trajetória religiosa, mas também política e literária de Frei Betto, um frade dominicano bastante conhecido que tem uma enorme produção literária, iniciada nos anos de prisão (1969-1973) e muito vigorosa nas duas décadas seguintes, com a Teologia da Libertação.

Os outros dois textos são tentativas de pensar a religião na Amazônia, com foco na região do baixo-Amazonas, onde fica a cidade de Parintins (distante 369 quilômetros da capital). O grupo de pesquisa tenta analisar as dinâmicas e tendência sócio-religiosas no espaço urbano: a presença de igrejas, grupos e movimentos religiosos na ilha e suas representações tanto numéricas quanto espaciais.

AF – Como surgiu a ideia de escrever os artigos?

Diego Omar – Os historiadores estão sempre buscando explorar as lacunas. Embora as memórias e as narrativas sejam nossas matérias-primas, também estamos tentando compreender e explorar os silêncios da História. E todos os textos se inserem nessas perspectivas ao abordar temas ou objetos ainda pouco explorados. Algumas propostas também surgiram pela instigação de grupos de pesquisa, que são importantes exatamente porque nos colocam em sintonia com trabalhos que estão sendo desenvolvidos em outras instituições.

Minha preocupação em compreender um pouco melhor participação dos católicos na imprensa se deve muito ao contato que tive na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com os debates sobre culturas e linguagens políticas. Já o interesse pelas dinâmicas sócio-religiosas mais contemporâneas são frutos tanto da minha atuação como professor e pesquisador em Parintins (a cultura local sempre me inquieta).

AF – O que os artigos pretendem discutir?

O Amazonas ocupa o 16º lugar com relação à população católica. Foto: Divulgação.

Diego Omar – Todos os textos propostos debatem a religião, que merece ser compreendida como um fenômeno complexo e dinâmico. Pode parecer simples – e todos têm sempre algo a dizer sobre a religião – mas tenho buscado trabalhar de maneira séria e em uma perspectiva interdisciplinar, mobilizando uma vasta bibliografia, um grande número de fontes e construindo recortes que permitam compreender como diferentes grupos religiosos vêm construindo sua legitimidade.

Algumas vezes esse processo se faz com base na tradição e a perspectiva de continuidade. É o que se pode verificar com uma análise dos jornais e revistas católicos publicados desde o século XIX até aproximadamente 1960. Outras vezes se dá com base em reformas institucionais ou mesmo com a mudança de paradigmas.

Ela está na televisão e no debate político com a mesma intensidade com que está nos ritos e práticas dos fieis. No entanto, as grandes instituições religiosas têm sofrido o impacto da perda de regulação sobre as experiências daqueles que crêem e, cada vez mais, as pessoas se sentem livres para acreditar naquilo que lhes convêm e para freqüentar várias igrejas ao mesmo tempo.

AF – Como se encontram os estudos da religião na contemporaneidade no Amazonas e no Brasil?

Diego Omar – No Brasil os estudos da religião têm crescido de maneira considerável, assim como os espaços de debates e socialização de pesquisas. Existem vários fóruns, associações e revistas especializadas em estudos da religião e a comunidade científica está cada vez mais aberta às pesquisa nesse campo, com um grande número de contribuições vindas da História, da Antropologia, da Sociologia, da Filosofia, entre outras disciplinas. No Amazonas as pesquisas ainda parecem estar engatinhando. Não posso falar com muita propriedade e seria preciso fazer uma triagem mais detalhada – esse é um bom tema para pesquisa – sobre o que se têm produzido nos programas de pós-graduação e com apoio das agências de fomento.

Amazonas ocupa o 17º lugar quanto à presença de religiões afrobrasileiras. Manifestação de Candoblé, Bahia. Foto: Divulgação.

Há poucas publicações sobre temáticas ligadas à religião e quando existem se concentram em Manaus. Quase nada da diversidade religiosa dos interiores do Amazonas está pesquisado, o que é um desafio, mas também um campo fértil para quem se interessa pelo assunto.

Um aspecto importante é que esse tipo de trabalho tende a sensibilizar a sociedade civil para a ideia de que “religião se discute sim” e de que tratar das opções religiosas é tratar de um assunto muito sério, porque ainda existe muito preconceito, intolerância e até mesmo perseguição, algo que não podemos aceitar como natural em um país laico, onde há liberdade de associação e de culto.

AF – Quais as novas leituras feitas sobre a religião no Brasil e no Amazonas?

As pesquisas são muito plurais e seria difícil detalhar aqui. Poderíamos indicar um grande número de temáticas que são muito fortes no estudo das religiões e que têm atraído a atenção dos pesquisadores.

No Amazonas as tarefas são muitas. Trata-se de um lugar onde a diversidade religiosa é intensa e vibrante. Estamos falando de um estado onde fenômenos como secularização e laicização se dão em ritmo muito lento. De acordo com o novo mapa das religiões no Brasil produzido pela Fundação Getúlio Vargas, o Amazonas é o penúltimo estado no ranking dos sem religião (2,94% da população). Em compensação é um estado que tem se diversificado, aparecendo nesse mesmo ranking em 11º lugar quando se trata da presença de pentecostais, 16º lugar com relação à população católica e 17º quanto à presença de religiões afrobrasileiras. Mas há contrastes evidentes entre a capital que concentra uma parte muito significativa e os interiores.

Religião está na TV e no debate político, assim como nos ritos e práticas dos fiéis, conforme Diego Omar.

No ano passado, por exemplo, estive em uma comunidade indígena Sateré-Mawé, em Barreirinha, onde existem sete denominações religiosas diferentes e pude presenciar indígenas que se auto-declaravam Adventistas do Sétimo Dia, mas que praticam o ritual da tucandeira, um ritual de passagem – de iniciação dos meninos na vida adulta – característico daquele povo da floresta. Isso não aparece nos censos demográficos, assim como não aparecem muitas vezes os fieis que vão às missas, mas que frequentam também os terreiros de umbanda, espalhados nas cidades. Esse traço sincrético, que muitas vezes mistura pajelança e festas tradicionais dos santos católicos, está assinalado em trabalhos de excelentes estudiosos como Eduardo Galvão ou Raymundo Maués, mas é preciso replicar essas as pesquisas e, quando possível, aprofundar ainda mais as abordagens.

Acredito que seria preciso reler as imbricações da religião com a formação histórica do território, as narrativas que nomeiam esse espaço como (quase) exclusivamente católico, as frentes de expansão das missões católicas e protestantes – mais recentemente neopentecostais – no interior do estado, a presença das religiões afrobrasileiras, os processos de sincretismo, hibridação e resistência das tradições indígenas, assim como as dificuldades de afirmação da laicidade nas escolas, que mesmo sendo públicas continuam vinculadas a instituições religiosas.

Há muito trabalho a ser feito e para isso é preciso construir grupos de pesquisa interinstitucionais, pois a realidade do estado é também muito diversa e as áreas de fronteira são enormes. Também vamos precisar garimpar fontes e organizar arquivos para que as gerações futuras possam dar continuidade às nossas indagações e para evitar que testemunhos/vestígios do passado desapareçam. Para isso vamos precisar realizar parcerias com as agências de fomento e com as próprias lideranças religiosas. Há muita memória e pouca história sobre a religião no Amazonas.

 

Luís Mansuêto – Agência FAPEAM

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